“Abracei o corpo da minha mulher, segurei-lhe a mão, a sua cabeça no meu ombro, criei um pequeno embalo, como para adormecê-la, ou como se faz a quem chora e queremos confortar. vai ficar tudo bem, vai correr tudo bem. o que era impossível, e o impossível não melhora, não se corrige. estávamos encostados à parede, sobre o cortinado, como fazíamos na juventude para os beijos e para as partilhas tolas de enamorados. estávamos escondidos de todos, eu e a minha mulher morta que não me diria mais nada, por mais insistente que fosse o meu desespero, a minha necessidade de respirar através dos seus olhos, a minha necessidade vital de respirar através do seu sorriso. eu e a minha mulher morta que se demitia de continuar a justificar-me a vida e que, abraçando-me como podia, entregava-me tudo de uma só vez. e eu, incrível, deixava tudo de uma só vez ao cuidado nenhum do medo e recomeçava a gritar.
com a morte, também o amor devia acabar. acto contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou de existir.”
este é um excerto do último livro “a máquina de fazer espanhóis” de valter hugo mãe. tem semanas que comprei este livro e depois de ter guardado a leitura para as noites em que tivesse tempo e não adormecesse às primeiras linhas, optei por leva-lo como companhia nas viagens de metro. logo ao início de uma dessas viagens, inevitavelmente, as lágrimas surgiram-me com este excerto. talvez por ir buscar profundamente aquilo que sempre desejei encontrar, um amor para a vida e porque me fez recordar um belo filme “mar adentro”. sobretudo fez-me rever o porquê de cá andar, as pequenas coisas que ganham sentido, os caminhos que optamos na procura incessante da felicidade, tudo em prole de termos um pouco de amor no coração. no nosso, no dos outros, e só assim valerá a pena.
há muito mais neste livro para alem deste excerto. não há página neste livro em que não se retire uma emoção, amor, força, um sorriso ou uma tristeza pelas situações quotidianas bem captadas, enfim vida!
um elogio a valter hugo mãe que, pela expressão e imaginação das palavras neste livro, é impossível não ter um coração do tamanho do mundo...